sexta-feira, 17 de abril de 2015

Gelatinoso Ocidente

     Dizia Manoel Oliveira, com a sua centenária sabedoria, que a Fé é a chave para uma vida preenchida. Trata-se de uma Fé que não é necessariamente mística, mas que traduz uma certeza daquilo que se faz. E Manoel, que pilotou carros e realizou incansavelmente até à sua partida, aos 107 anos, saberá que o envolvimento em tamanhas actividades só foi possível quando nelas encontrou significado.
    A Fé nem sempre é bem vista. O significado de tudo aquilo que nos rodeia pode até mesmo ser dissolvido e lixiviado, entre a rotina que nos é transmitida pelo grande entretenimento e a vida doméstica, que é tão bem dissecada nas redes sociais. Assim, numerosas experiências do dia-a-dia podem retirar o significado das nossas acções: a desorientação nos subúrbios dispersos, os carros velozes onde cada um, solitário, deixa de sentir a estrada, tal é o apetrechamento da suspensão hedonista. O individualismo acaba por se tornar na maior das histerias colectivas, pois que nem o sexo, a alimentação ou os festivais de Verão escapam à obsessão do super-ego. Diz o Estudo que o Sexo faz bem à saúde. E que a dieta vegetariana poupa as varizes. E que saltar no meio da multidão faz perder calorias.
     Aumentam os suicídios. São pessoas que, mesmo que estejam ligadas em rede ao resto da Humanidade, carregam a angústia da solidão. Entretanto, aparecem mais e mais estudos, que mostram a forma como a comunidade científica observa, impotente, o impacto do estilo de vida ocidental: derretem os pólos; secam os rios e inundam-se os mares. São doenças das sociedades ditas desenvolvidas. Por isso, é melhor nem fazer o que os avós faziam: imaginar o mundo daqui a 50 anos, em 2065. Para quê? Mais vale saltar ao som da música. Depois... Depois salve-se quem puder!
     No âmago deste individualismo colectivista, o que resta da Fé? Como escreveria Aldoux Huxley, ou se crê num Deus, ou se converte ao Comunismo. Mas a Fé também pode estar nas atitudes mais simples. Contudo, a Fé mais intensa, aquela que leva alguém a mover-se por uma ideia até às últimas consequências, parece ser vista como algo de ingénuo, senão extremista.
     Do Oriente surgem as mais insólitas notícias. Que o Estado Islâmico tem sido comprometido por  curdos valentosos. E que, pasme-se, morrem cristãos. Pessoas há que, no Oriente, professam uma religião que forjou a cultura ocidental, mesmo que isso lhes possa custar a vida.
     Com medo de sair da moderação, o Ocidente vê comprometidas as conquistas que, séculos volvidos, trouxeram uma qualidade de vida sem precedentes. Durante quanto tempo iremos defender os nossos valores?
    

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Um Novo Estado por 10 anos

Não é todos os dias que um líder da oposição convida um homem do partido do governo para ocupar o governo. António Costa puxa Rui Rio, os dois sorriem, vão a conferências juntos e repetem um discurso que, no mínimo, comprova as sólidas afinidadades ideológicas que comungam. De tal modo que, um pouco por toda a imprensa, sucedem-se elogios bajulados, promessas de um governo robusto, capaz de fazer frente à volatilidade dos mercados, ao clientelismo partidário, à Merkel, aos banqueiros irresponsáveis e enxutar de vez a malfadada Troika.

Em suma, o governo que se desenha é um governo de Salvação Nacional, o Único e o Escolhido, a condição necessária para defender o superior e sempre imaculado Interesse da Nação.

É certo que um governo de Bloco Central não é nenhuma novidade. Em tempos houve um que durou menos que o previsto, porque a instabilidade política tornou-se insustentável. Mas os tempos agora são outros. Politicamente, a diferença entre os dois maiores partidos esfumou-se. A provar esta gradual aproximação estão as inúmeras iniciativas parlamentares aprovadas por abstenção mútua e as figuras que trocaram o apoio de um partido pelo outro. Convém ainda lembrar que a agenda da Troika não surgiu sem que o país se afundasse em dívida. É, aliás, na estranha alternância entre o despesismo e a austeridade que está o trunfo das privatizações e o dinheiro fácil dos contribuintes.

Se a crise monopoliza o discurso político há, pelo menos, uma década, está já lançado o mote para o novo governo. Chamam-lhe Pacto de Regime e, a avaliar por várias manchetes, durará dez anos. Esta década mágica surge, entre entrevistas a figuras de vários partidos e questionários feitos a empresários, como sendo uma imperiosa necessidade. No entanto, a magia do número redondo não deixa de ser intrigante. Dez anos corresponde a dois Governos Constitucionais e meio. Não será mais fácil, em democracia, promover um acordo de regime durante oito ou mesmo doze anos?

Nos tempos conturbados que profetizam, não parece ser difícil instaurar o tal Pacto de Regime. A opinião pública está adormecida entre um liberalismo aparentemente consensual e um socialismo e uma social-democracia estilhaçada, senão pulverizada. No parlamento, a renovada maioria ganha vontade própria, até porque a crise tudo legitima. E no fim da década da estabilidade governativa, pode mesmo chegar-se à conclusão de que os dez anos de Pacto de Regime foram insuficientes.

Tampouco será difícil imaginar um consenso cada vez mais alargado. A presença de António Costa no congresso do Partido Livre e a ida de Rui Tavares à Universidade de Verão do PSD pode indiciar isso mesmo. Por mais livres que sejam as urnas, as escolhas parecem cada vez mais semelhantes.

Em retrospectiva, um governo inovador que faz história


O actual governo já deu provas de que está na vanguarda das práticas de boa governança. As medidas tomadas em Portugal são tão visionárias que merecem elogios de várias instituições internacionais.

Para começar, foi finalmente instituído por todos os ministros do executivo o hábito de usar um pin com a bandeira de Portugal na lapela. Estes PIN são o garante dos interesses nacionais quando, apesar do lixo tóxico gerado por minas licenciadas, o valor das exportações aumenta significativamente, num excipiente que parece ser inevitável na difícil fase que o país atravessa.

Como aumento das exportações, destacam-se o triunfo do empreendorismo ideológico e o dinamismo da refinaria de Sines. É também relevante o desempenho mão-de-obra qualificada que, pela primeira vez, conta com o apoio anímico do governo para ser bem-sucedida no estrangeiro. Passos Coelho já disse várias vezes publicamente, alto e bom som, que quem não tem emprego, designadamente professores, pode olhar para outros países. É a tão esperada internacionalização da economia que está para vir!

Portugal tem, finalmente, a ínclita geração, aquela que provavelmente tem os maiores índices de educação que o país alguma vez teve. E o ministro da educação, com a bandeira portuguesa na lapela, está empenhado em qualificá-la ainda mais. Para o conseguir, mantém em funcionamento as melhores escolas do Litoral, que contam com condições melhoradas. Essas escolas, muitas vezes privadas, podem até contar com o inovador cheque de ensino, que dá aos Encarregados de Educação a liberdade de escolha.

As escolas públicas contam com uma gestão mais criativa e inovadora, definida pelas peculiaridades dos municípios, e com métodos eficientes da múltipla colocação de professores, pelo que vão ser preferidas pelos pais. É que Portugal não é a Grécia, diz-se, e também não são os Estados Unidos da América, país onde são raras as escolas públicas que sobreviveram ao cheque de ensino.

Colocar Portugal na vanguarda, é o maior desígnio nacional. O secretário de estado que tutela laboratórios do Estado diz que a investigação científica não pode ser paga com o dinheiro dos contribuintes, podendo apenas ser feita por universidades e por privados. O Estado só regula e fiscaliza. O Estado tem de sair da frente dos negócios. O Estado só deve intervir na economia quando os banqueiros fazem asneira colossal. E quando há bancos para resgatar. O Estado é mau gestor de empresas públicas que dão lucro, porque essas empresas podiam dar mais lucro. O Estado tem de pagar o que deve e, para isso, deve combater a fuga ao fisco e sortear automóveis.

A nova ideologia está aí, e encontrou em Portugal um fecundo tubo de ensaio, até porque há que ir além da Troika. Ou, nas palavras de Camões, mais do que prometia a força humana. E nada se conseguiu sem a determinação para cortar nas gorduras. Esta admirável coragem política é partilhada por outros partidos que subscrevem, ou que não contestam as reformas. Finalmente o país está mais meritocrático, e os melhores das empresas têm condições para vingar, com um peso mais reduzido dos impostos e dos salários.

Mesmo com a redução do ministério da Cultura, o país está mais criativo e inovador. E a cultura lusitana saiu revigorada. O Fado é Património Imaterial da Humanidade e o Benfica jogou mais que uma vez em finais europeias. Celebremos.

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a limpeza de azulejos


O convento de São Pedro de Alcântara, junto do famoso miradouro com o mesmo nome, é dos poucos conventos de Lisboa que mantém o interior quase intacto. Contudo, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) anunciou, publicamente, um projeto que pode desfigurar o interior e destruír irremediavelmente uma coleção única de azulejos.

Fundado em 1672, no antigo palácio dos Condes de Avintes, o convento mantém elementos maneiristas, apesar dos efeitos do terramoto de 1755. Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, muitos conventos da capital sofreram abandono e vandalismo. Outros foram descaracterizados enquanto albergaram hospitais (como na Colina de Santana), quartéis ou fábricas.

Este convento, porém, foi preservado pela Santa Casa da Misericórdia, que nele instalou um orfanato. Segundo o vídeo do projeto que a instituição pública divulgou online, o convento será alvo de uma intervenção profunda, que envolve a remoção gratuita de azulejos, a substituição de mobília antiga, a pintura avulsa de elementos em madeira e todo o espaço conventual parecerá lixiviado e desenquadrado. Perante tal escândalo, elementos como os azulejos podem desaparecer sem deixar rasto, depois de terem rendido mihões que lesam os contribuintes.

O mote do projeto é adaptar o espaço a “novos usos”, de forma a rentabilizar o convento e revitalizar o Bairro Alto com novos espaços, tais como restaurantes, lojas e até uma biblioteca. Poderia então o edifício histórico albergar todas estas atividades sem recurso a obras ostensivas e profanadoras?

Dado valor patrimonial do convento, talvez Pedro Santana Lopes, Provedor da SCML e mentor do projeto, considere recuar na extensão das obras e definir o destino a dar aos valiosos azulejos que ainda cobrem paredes do convento. De outra forma, a perda será irreparável e irá manchar a imagem da instituição.







Quinta setecentista arruinada por obras do município da Amadora















Foi viral o escândalo do restauro da pintura de cristo, feito pela amadora Cecília Jimenez, no país vizinho. Mas por cá, há outros atentados contra o património, alguns dos quais são perpetrados à vista de todos e com financiamento europeu.

Não muito longe do limite do concelho de Lisboa, fica a Quinta dos Condes da Lousã. Trata-se de um edifício que, apesar da escala relativamente reduzida, continha uma das mais relevantes colecções de azulejo em Portugal. Pelo menos assim o dizem várias páginas da internet, incluíndo a da própria Câmara Municipal da Amadora.

Porém, quem chega ao sítio do alegado palácio, difilmente reconhece as pedras nuas. As paredes já não sustêm os telhados nem os tectos pintados; os jardins foram transformados numa estranha praceta com um parque infantil, e dos azulejos, não restam nem vestígios. O que aconteceu?

Aparentemente, a Câmara Municipal da Amadora conseguiu financiamento europeu para recuperar o imóvel, do qual é proprietária. O concurso para as obras foi lançado em 2007, mas em 2009, o empreiteiro interrompeu os trabalhos. Desde então, todos os azulejos foram removidos, assim como os restantes elementos construtivos. Apenas ficaram as paredes de alvenaria, que agora, sem a protecção do telhado, degradam-se sob as intempéries.

Apesar do impasse, os jardins do palácio, requalificados segundo os preceitos da câmara, foram concluídos em 2010. Esta obra beneficiou a população local, uma vez que inclui um parque infantil, pérgolas de madeira e novos bancos de jardim. Trata-se de uma intervenção que modernizou o espaço, visto que pouco ou nada resta do anterior jardim do palácio. Até a fonte barroca foi actualizada.

Nos anos de abandono, o palacete, já desprovido de azulejos, foi classificado Imóvel de Interesse Público. E a Direcção-Geral do Património pediu esclarecimentos à Câmara Municipal da Amadora, num ofício. Consta que as obras não prosseguiram por incapacidade do empreiteiro, e os azulejos estão armazenados em estaleiros do município. Mas que garantias foram dadas quando ao seu destino? E o que aconteceu à verba de recuperação do palácio?

Certamente que a Câmara Municipal da Amadora pretende preservar um dos raros edifícios históricos do concelho, e salvaguardar um dos pontos altos do património azulejar nacional.



Qual é a próxima estação?

A CP contratou recentemente a empresa de João Tocha para serviços de consultoria de comunicação, por um ano, no valor de 40 mil euros. Esta contratação pode ser a lufada de ar fresco, a garantia de que afinal a situação financeira da empresa pública é melhor do que se supunha. Imagine-se a quantidade de bilhetes de comboio suburbano que paga este serviço. Ou a poupança gerada no recente aluguer de carruagens a Espanha. A CP, aparentemente renovada, mesmo assim mantém os seus gabinetes técnicos e pede pareceres externos para melhorar a sua imagem corporativa.

Noutros gabinetes, fazem-se planos para a gestão da rede ferroviária. E não é só a venda da Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário (EMEF) que está em jogo. Perante a recusa europeia em financiar mais auto-estradas, o governo apressou-se a fundir a gestão da rede ferroviária com a rede rodoviária, sob o enigmático selo da Infraestruturas de Portugal. Nesta cúmplice simultaneidade dos factos, será crível o desvio de fundos europeus destinados ao transporte ferroviário para a construção da quarta auto-estrada de Lisboa ao Porto?

Segundo o PETI, o Plano Estratégico dos Transportes e Infraestruturas, a implementar até 2020, prioriza-se o transporte ferroviário de mercadorias ao de passageiros. Longe vão os anos do governo de José Sócrates, dos projectos de Alta Velocidade que levariam madrilenos ao sol da Caparica num ápice. Agora, com o barrote da austeridade, esqueceu-se a pressa de que o país perca o comboio, e a modernização da rede ferroviária limita-se a um conjunto de intervenções pontuais.

Parece estranho passar de oitenta a oito quando, na verdade, pode haver projectos mais ajustados. Há comboios quinquagenários por substituir, a bem do conforto e da eficiência. Há linhas que podem melhorar o desempenho com mudanças de traçados, como a Linha do Oeste, fundamental para o desenvolvimento da Estremadura e da Beira Litoral. Há ligações ferroviárias com a Galiza por fazer, que podem aumentar o turismo e dinamizar o aeroporto Francisco Sá Carneiro com novos passageiros. Há uma linha do Sul por modernizar, cuja passagem por Beja pode rentabilizar um aeroporto sub-aproveitado. Por fim, há ligações Intercidades ao país vizinho que são quintessenciais para a coesão do território. Aproveitando algumas das linhas já existentes, porque não ligar Vila Real ou Bragança a Burgos; a linha do Douro a Zamora; Guarda a Salamanca; Lisboa a Badajoz e Faro a Sevilha?

É certo que o benefício económico de alguns dos projectos mencionados é discutível, quando o Estado recebe menos Imposto Automóvel e Imposto sobre Produtos Petrolíferos; quando a construção de obras menos ambiciosas é menos lucrativa para quem as constrói. Mas o desinvestimento na rede ferroviária, perpetrado neste país ao longo das últimas décadas, tem um custo esmagador. Tem o custo da dependência energética (de petróleo) do exterior, do maior preço das deslocações, da sinistralidade rodoviária, da poluição galopante, do desordenamento do território, da desigualdade social decorrente do domínio do transporte individual. Fechar linhas dificilmente resolve a desertificação das mais regiões remotas.

Se for gerido com eficiência e responsabilidade, o combóio continua a apresentar inúmeras vantagens competitivas, assumindo um papel de charneira no desenvolvimento das regiões. No Norte da Europa, que as elites partidárias lusas culpam pelo fracasso económico do Sul, não se desinvestiu no transporte ferroviário, com obras raramente faraónicas. Os resultados estão à vista.

Os novos Lusíadas do Empreendorismo

Quando a economia gripa, profetizam-se os mais incríveis planos de salvação. Entre investimentos públicos em PPP ou a liberalização do mercado do trabalho, os maiores grupos económicos encontram, salvo honrosas excepções, o seu caminho na senda do crescimento. E quando este mercado pequeno à beira-mar plantado fica aquém da ambição descobridora, o capital avança para novas paragens d’aquém e d’além mar.

A retoma da economia que os governos preconizam não se limita só aos grandes campeões nacionais. Há estímulos para Pequenas e Médias Empresas, há financiamento mais ou menos abundante, há programas de modernização e, claro, há apoios ao empreendorismo. Mas o que é o empreendorismo?

Se tivermos em conta a definição do dicionário, o verbo empreender vem do latim imprendere, que corresponde à iniciativa para realizar algo. A palavra é, todavia, utilizada com conotações ideológicas e ajusta-se aos desígnios de cada época. Conquistar e arrasar uma cidade é um acto colectivo tão empreendedor como a construção de um hospital para cuidar dos estropiados. Assim, o empreendorismo não deve corresponder a um chavão, uma vez que o benefício para a sociedade pode ser duvidoso.

Na sua mais recente apropriação, o empreendorismo é a promessa de realização individual na criação de novos projectos empresariais. E a utilização da palavra toma tais dimensões que a economia parece estar realmente a recuperar. Nesse gigantesco laboratório de retórica fina, o verbo capacitar tem uma presença constante enquanto não passa de moda. E as ideias ganham a forma de coisas diferentes, mais ou menos úteis, mas que geram know-how e valor acrescentado. À nova figura do Secretário de Estado do Empreendorismo somam-se os cursos de Empreendorismo, as conferências de Empreendorismo, as Encubadoras de Empresas, as Start-ups, onde se criam verdadeiros empreendedores capazes de empreender, de vestir e falar estrangeirismos como qualquer indivíduo bem sucedido e, claro está, empreender inovando, olhando para aquele nicho.

Depois da farsa, vem a tragédia. Os novos empreendedores engomados confrontam-se com a crueldade dos mercados, onde dominam as feras. Tentam lançar o último Grito do Ipiranga empreendedor mas são colhidos de surpresa. Com ideias de nicho de mercado, é expectável que não consigam destronar as feras, porque o mercado só pode ser livre nos livros de teoria económica da Escola de Chicago. Porque as grandes superfícies comerciais são sempre as mesmas e as pessoas para (sobre)viver precisam mais de comida e roupa do que das apps revolucionárias.

Ideias novas, precisam-se, dizem os especialistas, ideólogos e imagológos. É preciso impelir os empreendedores, tal como os navegantes dos Descobrimentos, para descobrir terras novas. Mas agora, as ideias que forem bem sucedidas são apopriadas pelas grandes empresas. Já as ideias de nicho, embora possam pontualmente encontrar um grande sucesso, dependem da resiliência do nicho de mercado em questão.

Em suma, resta aos pequenos empreendedores inovar constantemente e ter pavor à tradição e a qualquer forma de imobilismo. Entretanto, os negócios com procura garantida tendem a estar destinados aos seus Senhores. Assim é a livre concorrência e a igualdade de oportunidades.

O Quinto Poder

Recentemente tem-se assistido à proliferação de novas e misteriosas fundações e clubes que organizam eventos onde constam as mais influentes figuras públicas. Alguns destes think-tanks são meticulosamente difundidos nos média, tendo até direito a reportagens especiais que pululam no espaço informativo.

Estas distintas organizações, criadoras e divulgadoras do mais elevado conhecimento multidisciplinar, pretendem esclarecer a opinião pública, moderar o debate cívico e criar consensos. E fazem-no de forma ostensivamente livre. Como instituições privadas, estão livres das restrições e do controlo dos organismos do Estado e, apesar da capacidade de formar opinião, estão à margem das leis que regem a comunicação social.

As fundações privadas afiguram-se, portanto, como uma quinta forma de poder, depois do poder tripartido do Estado e do poder da comunicação social. O conhecimento criado e divulgado compromete-se a exercer uma suave influência nos agentes políticos e económicos. Influencia, por um lado, a opinião pública, na medida em que promove o debate e o esclarecimento da população. Por outro lado, a excelência da produção intelectual perfila-se, a par das empresas de consultoria e dos estudos encomendados, como uma fonte de know-how necessário nas decisões políticas.

Este aumento da influência ocorre à medida que o Estado fica debilitado nas suas competências. Tendo o Estado de gerir a sua insaciável dívida, procede-se ao desmantelamento dos organismos que fazem investigação e à diminuição dos quadros de investigação. A produção intelectual fica cada vez mais comprometida. Talvez por essa razão, sucedem-se os académicos que trocam universidades públicas, sujeitas a cortes orçamentais, engrossando os quadros de fundações. Simultaneamente, alarga-se o nível de serviço público fornecido por estas instituições privadas, como demonstra a disponibilização online de dados estatísticos seleccionados, algumas das quais são fornecidas pelo Instituto Nacional de Estatística, que são apresentados de forma livre e pedagógica para todos os cidadãos.

O aparecimento destes novos organismos defensores da liberdade é parte quintissencial da estratégia de grandes grupos económicos. Atente-se ao exemplo de um grupo de distribuição que, estando atrás na corrida pela detenção dos média, e faltando-lhe um jornal de referência, assume uma estratégia diferente. É aliás nesse sentido que os temas abordados em ensaios e conferências dão, por vezes, pistas sobre as decisões políticas num médio e longo prazo.

Imagine-se um supermercado onde se vendem livros fazedores de opinião, a um preço irrisório, várias vezes mais baixo que os simples manuais escolares. Estes livros abordam os mais variados temas, alguns deles até bastante cândidos, como um retrato do património arquitectónico negligenciado e abandonado no nosso país. Outros livros, no entanto, merecem outro tipo de atenção. Um deles, que versa sobre a evolução da classe média, questiona o abuso da expressão para fins políticos, uma vez que esta não existe como classe social. O volume sobre políticas laborais assume peremptoriamente que não existe risco de aumento dos despedimentos pela liberalizaçãoo do mercado.

Outros volumes merecem igualmente a atenção. Aquele que aborda a gestão florestal encerra o “debate” referindo a inevitabilidade de discutir a liberalização da plantação do eucalipto. O livro referente às Parcerias Privado-Públicas esquece-se da natureza ideológica que os legitima e refere, em jeito de conclusão, que não pode haver preconceitos relativamente a estes modelos de gestão do Estado, podendo haver PPP’s bem feitas. O mesmo livro acrescenta que, a nível internacional, poderá mesmo haver PPP’s em novos sectores, tais como o da Defesa. Talvez no futuro nos possamos debater com mercenários e exércitos privados.

Talvez as compras num supermercado contribuam para o pensamento livre. Mas será que a liberdade de pensamento varia consoante a(s) fonte(s) de financiamento?

O Nazional Liberalismo


Um pouco por toda a Europa, a insatisfação popular assume diferentes contornos. Mas a Extrema-Direita parece ganhar cada vez mais adeptos, com algumas excepções, onde as opiniões do eleitorado resistem em extremar-se. O fenómeno, impensável há uma década, merece uma análise profunda.

O aumento da popularidade da Extrema-Direita reflecte o sucesso de algumas políticas europeias. Demonstra a desmilitarização de uma Europa cada vez mais mercantil, que permite à Força Aérea pouco mais que descobrir aviões russos. Demonstra o sucesso da desindustrialização perpetrada ao abrigo dos mais singulares interesses multinacionais, que preferem produzir lá fora. Demonstra a voracidade de um desemprego que atinge gente de todos os canudos, idades e credos. É que, quanto mais desemprego houver, menos vale o esforço dos que trabalham, e quem emprega sabe disso. Por fim, a ascensão da Extrema-Direita testemunha a calamidade de políticas sociais e económicas avulsas, da admissão criminosa de países menos competitivos na Zona Euro e nos ciclos de despesismo desmedido e austeridade castradora.

Os europeus, principalmente os mais jovens, sentem as suas expectativas frustradas e não têm em memória os anos das guerras. Perante esta tendência, a busca de culpas é sintomática. Culpam-se os ricos e os pobres, os nórdicos e os sulistas, a Merkel e o Barroso, os banqueiros e as agências de Rating.

Nesta busca incessante de culpas, ganha a culpa que ganhar mais adeptos. Acontece, pois, que certos partidos políticos apontaram o alvo aos imigrantes. Os imigrantes tiram emprego. Os imigrantes vão acabar com os Arianos. Os imigrantes roubam-nos Espaço Vital. Os imigrantes são incivilizados. A retórica é afinada consoante as diferentes realidades. Os portugueses não são imigrantes, são bons trabalhadores.

Quando a retórica assume o seu ponto de caramelo, orquestra a histeria colectiva e alastra para além do imaginável. Talvez o senhor Le Pen esfregue as mãos de contente cada vez que lê notícias sobre as atrocidades do Estado Islâmico. Vejam, seis cidadãos nacionais foram para a Síria! Cuidado com essa gente! Um por um, os países começam a olhar com desconfiança para certas comunidades de pretensos invasores. Mas o que o senhor Le Pen talvez não recorde imediatamente, é a origem do partido que fundou e liderou até abdicar pela filha. A Frente Nacional, apesar da solidez de um só líder, passou por várias e inconsistentes linhas ideológicas. O partido já incluíu, nos idos anos 80, defensores do neoliberalismo. Esse dado seria irrelevante se não houvesse um padrão semelhante no financiamento de partidos como o grego Aurora Dourada.

Se a opinião pública julga que, ao apoiar os partidos de Estrema Direita, junta-se num bastião contra o Mal, desengane-se. As forças que sustentam as mais recentes opções políticas estão acima da lavagem ideológica moralista que as reveste. Seria aliás interessante imaginar as Estremas-Direitas no poder, sentindo-se tentadas a cumprir programas eleitorais. Como seria então se os países, com um nível inédito de dependência do exterior, erguessem barreiras alfandegárias que violam acordos internacionais feitos ao abrigo da Organização Mundial do Comércio.

Neste Mercado Livre, descriminar os estrangeiros que menos podem, refugiados económicos pelas mais variadas razões, pode ser tão inconsequente como cruel.

O Naufrágio Transatlântico





Se dúvidas houver quanto aos valores democráticos da União Europeia, recorde-se o zelo com que a vontade popular irlandesa foi duplamente consultada. Na segunda vez venceu o sim, e a Europa unida viu aprovado o tão aguardado Tratado de Lisboa.

Terminou há pouco uma outra consulta pública: a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (em inglês Transatlantic Trade and Investment Partnership, TTIP). Contudo, no seio da postura dialogante de abertura democrática da União Europeia, os documentos da negociação são desconhecidos pelo público.

Os textos oficias sustentam que mais do que estimular as trocas comerciais, o acordo visa a harmonização legal entre os Estados Unidos da América e os estados-membros da União Europeia. Mas pouco mais é conhecido pelos cidadãos. E enquanto grandes grupos económicos dos dois lados do oceano dialogam com as autoridades, algo de muito insólito acontece: os média pouco ou nada adiantam sobre o tratado e desconhece-se as forças que os silenciam. Apenas passam os mais bem-intencionados estudos encomendados pela União Europeia que anunciam os ganhos económicos do TTIP para cada Estado-Membro. Uma vez concluído, estima-se que o acordo faça a economia europeia crescer 120 mil milhões de euros, mas com base em que pressupostos?

Ao nível do comércio e do investimento, surgem dúvidas quanto à capacidade de empresas portuguesas se manterem competitivas. Mas as dúvidas quanto ao TTIP vão muito além da melhoria da balança comercial. Segundo várias Organizações Não Governamentais, o tratado prevê um apertar da vigilância da internet, o fortalecimento dos Direitos de Autor, a diminuição de direitos laborais, a permissão de Organismos Geneticamente Modificados, a autoriação da exploração de gás de xisto ou a desregulação dos limites de emissão de carbono na aviação.

Recentemente, o periódico Finantial Times trouxe a lume uma carta, com 14 signatários, entre os quais se conta o secretário de estado Bruno Maçães, com vista à revisão do acordo. A cláusula em questão, segundo várias ONG, permite às empresas processar os Estados se a legislação nacional (em matéria de ambiente, direitos laborais,...) puser em causa os seus investimentos. A difusão da carta, que devia ter permanecido secreta, foi suficiente para Jean-Claude Juncker afastar e substituir a responsável pelas negociações da parceria.

Envolto em secretismo, a parceria transatlântica pode ser uma ameaça às liberdades fundamentais e a promessa de tempos obscuros na União Europeia. Só com uma acção cívica forte foi possível deixar cair os projectos legais semelhantes contra a pirataria (ACTA) que ameaçavam a privacidade da internet, ou o polémico projecto de Lei das Sementes.

Desta vez, travar o naufrágio transatlântico requer uma mobilização das pessoas. A não ser que a opinião pública defenda a totalidade dos projectos em curso.

Minas da Boa Fé: nem tudo o que brilha é ouro

Escrevo estas linhas para que a consciência não me pese tanto. E quando o país se verga aos mais obscuros interesses, algo tem de ser feito.

Desta feita, pretende-se sacrificar uma paisagem única e ancestral. Podia referir-me às barragens do Tua e do Sabor que, apesar de cobrirem irreversivelmente a paisagem, podem vir a ser úteis aos agricultores em tempos de seca, os rios transbordam menos no inverno e a electricidade é produzida cá dentro e não lá fora. Mas este caso é diferente.

A empresa canadiana Colt Resources é uma das concessionárias na prospecção mineira em Portugal. Algumas destas concessões do governo incluem a reactivação de minas abandonadas, podendo ser realmente benéficas para o desenvolvimento regional. Esta concessão, porém, inclui uma das raras porções de montado que, pelo excepcional valor ecológico, está protegida pela Rede Natura 2000. Relembre-se que esta paisagem, ao contrário da extracção mineira, é única no mundo, e foi apelidada por Mike Salisbury, produtor da BBC que fez um documentário sobre o montado, como sendo uma mina de ouro de vida selvagem. A zona em questão está ainda polvilhada dos mais variados monumentos megalíticos, herdades quinhentistas e santuários barrocos. Ora, tendo sido descoberto ouro, alterou-se o Plano Director Municipal e fizeram-se imediatamente planos para uma mina que mede, de área, 100 campos de futebol. Naquela que é uma das paisagens rurais melhor preservadas de todo o país, há planos para abater milhares de sobreiros e azinheiras e abrir duas crateras a céu aberto, de cem metros de profundidade. E no fim, para tornar visível este espectáculo “bom para a economia”, ergue-se um monumento, possante e imóvel na planície: um monte de escombros, vulgo escombreira, com 300 metros de altura, que com sorte talvez ombreie a altura da Torre Eiffel. Estes dados foram avançados pelo site Tribuna Alentejo. Entretanto, a Colt Resources anuncia, no seu site, a inteção de avançar com um plano de “exploração agressiva” que torne a região mineira importante a nível mundial.

Para sustentar tamanho projecto, não cessam os já vernáculos elogios do desempenho económico. Prometem-se empregos temporários, durante os cinco anos de laboração da mina. Em troca, a Colt Resources delega a responsabilidade legal de tudo o que acontece na sua filial, a Aurmont Resources Unipessoal Lda, que assumirá as 10 000 toneladas de resíduos tóxicos, mais nocivas que os activos tóxicos bancários, uma vez que incluem arsénio, chumbo, cobre, mercúrio inorgânico, níquel, prata e zinco que, na melhor das hipóteses, e se não houver acidentes, irão contaminar águas subterrâneas e a saúde pública, segundo várias Organizações Não Governamentais.

Por cinco anos de laboração - cinco anos em que os royalties que o Estado recebe correspondem a uma reduzida parte da mais-valia - fere-se uma paisagem que leva pelo menos, 70 a 100 anos a recuperar e cria-se um desemprego dificil de resolver. E se houver danos ambientais mais pesados, isto é, se a barragem dos rejeitados se romper, este pode ser o certificado de óbito de uma região que vive de actividadess como o turismo ou a pecuária. Tal como aconteceu em casos semelhantes do país vizinho, o rio Xarrama pode encarregar-se por derramar irreversivelmente águas tóxicas e estéreis no rio Sado.

Sem tomar uma posição definitiva sobre o projecto mineiro, por dados alegadamente inconclusivos, a Assembleia Municipal de Évora reuniu-se no centro paroquial da freguesia de Boa Fé. Convidou vários organismos, entre os quais a própria Colt Resources. Segundo o relato desse encontro, que a Câmara Municipal disponibiliza na página web, Jorge Valente, responsável máximo da Aurmont Resources (concessionária da Colt Resources em Portugal) disse que o projecto não avança se a população for contra.

A junta de freguesia, as organizações locais e os moradores que assistiram à reunião expressaram a sua desaprovação face ao projecto. Se este é um país democrático, de que estamos à espera?

É tudo uma questão de retórica



A Esquerda, velha e monolítica, tarda em aceitar os novos tempos. Há até quem rotule o seu discurso como a cassette. Ao mesmo rufar dos tambores, segue-se o já tradicional ataque aos capitalistas, que fazem todos parte do temível sistema capitalista, aquela omnipresente fonte dos males da sociedade capitalista. E depois surgem, claro está, os mais variados personagens do Grande Capital que, entre banqueiros, milionários e a quadrilha da Troika, dividem a culpa dos mais pequenos acontecimentos, tais como a exploração e a lumpenização dos assalariados. O Povo, operários e os camponeses, tem de se revoltar, reivindicando o fim desta negociata escandalosa.

Já o discurso dos bem-sucedidos, aqueles que reúnem condições de confiança para governar, é bem diferente. É um discurso que muda de vocábulos ao ritmo a que saem as novas colecções Outono-Inverno, porque é preciso inovar e surpreender o eleitorado. Neste momento, tudo se joga em operações de marketing e de acessoria de impensa, capazes de de mobilizar a junção de sinergias, com vista à concretização dos mais variados programas capacitadores.

Nesta conjuntura socioeconómica em que nos encontramos, não há patrões nem assalariados, apenas há empreendedores e colaboradores, membros de equipa que contribuem na prossecução dos mais variados objectivos. Tampouco existe classe média, até porque essa verdadeiramente nunca existiu. A luta de classes é uma miragem, um fetichismo marxista, porque Marx está morto e enterrado, e agora só lemos Piketty.

Tudo aquilo que existe é inequidade na distribuição dos rendimentos, mas remetemos, quando possível, o estudo dessa matéria para as Fundações privadas e para as Organizações Não Governamentais. Estas instituições cooperam nas melhores práticas de governança. Sindicatos é coisa do passado, porque os direitos estão já assegurados pelo Governo. As greves só dão transtorno e dores de cabeça a quem menos culpa tem e, acima de tudo, fazem a economia parar. Quaisquer restrições ao crescimento económico devem ser banidas, não vá o país descer no ranking da competitividade.

Garantir um Pacto de Regime passa por assegurar condições de governabilidade. O memorando da Troika, de facto, obrigou vários actores políticos e sociais a agir em conformidade. Efectivamente, temos de nos livrar das jóias da coroa, isto é, meras empresas públicas que podem dar lucro a accionistas estrangeiros; precisamos de cortar nas gorduras e da austeridade, isto é, pagar menos reformas e fazer menos investimentos improdutivos. Neste processo de ajustamento, há menos consumo interno e é essencial exportar. O património do Estado precisa de ser alienado e a insustentabilidade da Segurança Social prende-se não com os salários desregulados ou com a fuga de cérebros, mas sim com os desempregados e os bebés que não nascem.

Resta alguma queixa? Para além do poder do voto, existem livros de reclamações. Há ainda parcerias e organizações internacionais com observadores competentes. E se nenhuma destas formas de democracia for suficiente, existe sempre a serventia da porta, uma vez que emigrar é sempre uma possibilidade.

Abril não matou Maquiavel



Anos volvidos, a Revolução deixou os seus frutos. Vive-se melhor, durante mais tempo e com mais liberdade. O poder deixou de estar concentrado num Estado obsoleto, que apenas se sustinha com jogos de poder oligárquicos, para sair à rua, aos sindicatos, aos jornais livres e aos partidos democraticamente eleitos. Estas conquistas, porém, não são estáticas e só se sustêm enquanto forem insufladas.

Os tempos não param, e os feudalismos nascem da apatia das multidões, da deseperança e do não envolvimento cívico. É, aliás, bastante fácil destruir Abril por dentro sem tocar na fachada que o povo erigiu, instruir cidadãos menos exigentes, complacentes com abusos cada vez maiores e sem envolvimento nas decisões que verdadeiramente dizem respeito a todos. É que, por vezes, um olhar desatento ao telejornal faz desalento, e apetece suspirar “não vale a pena”...

É sabido, porque a História nos ensinou, que o poder corrompe, cria laços e raízes, e que a não oposição ou resistência só agrava o avanço da autoridade. Por essa razão é pouco tranquilizante constatar que, 40 anos depois da Revolução, cada vez menos votam; é como se a alternância entre os dois partidos no parlamento fosse encenada dentro de um só sistema.

Como resultado dessa apatia, monta-se à nossa volta um Estado de excepção. Excepção na crise, que legitima os governos a tomar medidas excepcionais. Exceção nas medidas excepcionais, porque os que mais contribuem para a economia não devem ser sequer beliscados. E desse modo, justifica-se a educação, a saúde e a justiça de Exceção.

Cada vez mais fala-se de uma crise abstracta, de números e gráficos, para justificar o Estado de excepção. Suaviza-se o discurso e chama-se à destruição austeridade ou, melhor ainda, ajustamento. Na volta não se compreende porque é que, quando o desemprego paira no alto, é preciso atravessar uma maratona burocrática e fiscal para pintar, cantar ou vender na rua, ou mesmo para abrir um pequeno negócio. Não se compreende também porque é que há carros topo de gama, negócios que prosperam em tempos de crise e leis e contratos que são indecifráveis em português corrente.

Certamente que a liberdade de opinião é respeitada, mas as leis dificultam a fundação de novos jornais. Conhecer a “atualidade” só pode ser feito pelos grandes jornais, e um punhado de partilhas virais nas redes sociais. Contudo o lápis azul desapareceu, ou pelo menos já não desenha as notícias. E eu tive a liberdade de escrever estas linhas. Sei que devo muito aos Capitães de Abril, que desobedeceram por um propósito, e sei que esta geração tudo tem para melhorar o legado da Revolução.

Muito obrigado.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos e o eucalipto

Os ensaios da Fundação, que versam sobre os mais variados temas, assumem uma grande utilidade no debate cívico. Influenciam, não só a opinião pública, na medida em que promove o esclarecimento da população, mas também geram conhecimento capaz de sustentar as mais variadas decisões políticas.

Um dos ensaios, da autoria do Professor Catedrático João Santos Pereira, têm como título O Futuro da Floresta Portuguesa. O livro expõe, de forma clara e concisa, o valor económico e ambiental da floresta. Temas como a sequestração de carbono e a prevenção de incêndios surgem inevitavelmente, uma vez que assumem um grande relevo nas políticas de gestão florestal. No entanto, as palavras finais parecem menos claras.

Em jeito de conclusão, é enumerado o papel das várias espécies florestais, designadamente o sobreiro e o eucalipto. Relativamente ao sobreiro, o autor refere que “a existência de uma área elevada de sobreiro no futuro (...) requer que a componente industrial da fileira enfrente com êxito os problemas comerciais que dizem respeito à competição entre a rolha de cortiça natural e outros vedantes das garrafas de vinho.” Seguidamente, e sem mais acrescentar sobre uma espécie com um valor económico ameaçado, o autor refere os benefícios que o eucalipto apresenta na adaptação às alterações climáticas. E acrescenta: “Como cultivo intensivo, as rotações de eucalipto permitem uma grande mobilidade. (...) No futuro próximo, vai ainda ser a discussão e o impacto da legislação restritiva que limita a expansão da área do eucalipto que vão dominar.”

Esta última frase, que aliás encerra o ensaio, parece misteriosa. Será uma chamada de atenção, um toque a rebate para a floresta portuguesa que não foi ainda convertida em monocultura do eucalipto? Esta pode ser ainda a profetização dos mais bizarros projectos legais que têm tido a conivência e a assinatura deste governo.

No sentido de liberalizar a plantação do eucalipto, desapareceu misterioramente de São Bento a preparação de proposta de lei no sentido de o classificar como espécie invasora, tal como acontece em Espanha e noutros países. É bizarro perceber que, legalmente, uma espécie invasora no país vizinho, é o acarinhado “trigo de império” no lado de cá. Também é bizarra a liberalização dos pedidos de arborização, aprovada por este governo, que foi apelidada como a “lei do eucalipto livre”. Se o eucalipto representa 26% da floresta portuguesa, uns preocupantes 92% da área plantada depois dessa lei pertencem ao eucalipto, o fascista dos campos, como lhe chamou Afonso Cautela.

Basear o valor de espécies como o sobreiro na rolha de cortiça parece, no mínimo redutor. Há mais aplicações para a cortiça em áreas tão distintas como a construção e a aeronáutica, cuja procura desta matéria prima está em crescimento. E para além do valor da cortiça, soma-se o valor do montado como paisagem produtiva, como atracção turística, como prevenção de incêndios e no combate à desertificação.

Incontornável parece ser o valor económico do eucalipto. Mas poderá haver “bom eucalipto”? A reduzida dimensão fundiária por vezes frustra qualquer plano de ordenamento florestal, situação que pode desencadear grandes perdas económicas e ambientais. E mesmo nos casos mais felizes, é necessário contabilizar os custos desta admirável espécie, tais como a erosão irreversível de solos férteis ou a perda das cada vez mais escassas reservas de água no solo.

Provavelmente, em vez de discutirmos a liberalização da floresta, poderíamos atenuar os efeitos nefastos da plantação do eucalipto em Portugal. Nesse sentido, a criação do segundo Parque Nacional, o do Montado, livre de eucalipto, que incluísse grandes parcelas do Alentejo, podia ser a garantia de protecção de uma paisagem única no mundo, que se quer candidata a Património da Humanidade da UNESCO.

Independentemente da orientação política, reduzir a terra a um jogo de casino do “quem dá mais” parece pouco sensato. Não quero viver num país onde os amigos que vêm do estrangeiro me dizem “da auto-estrada só vejo eucaliptos”. Portugal é muito mais do que isso.

A aposta sebastianista no mercado de capitais

António Guterres referiu, numa entrevista, que o sector financeiro recebe mais atenção que o económico, que por sua vez se sobrepõe às preocupações sociais e ambientais. Efectivamente, as políticas desenvolvidas pelos últimos governos constitucionais facilitaram a actividade das empresas cotadas na bolsa, que se traduz na formação de campeões nacionais, prontos a competir lá fora, num mundo cada vez mais globalizado.

Esta aposta nos grandes grupos económicos, de interesse estratégico nacional, deveria incentivar o investimento português no estrangeiro. Mas que carteira de investimentos poderia fazer um país cada vez menos agrícola e industrial? Essencialmente investiu-se na banca e no imobiliário. Até a(s) corticeira(s) apostaram nestas áreas, que cresciam mais rapidamente que o sector agro-florestal. E foi então que o capital se concentrou cada vez menos em áreas menos lucrativas.

Com a aposta no imobiliário vieram as políticas do betão, que eucalitpizaram quaisquer outras formas de desenvolvimento. Exemplo disso foi aposta na educação, que se traduziu em escolas de luxo, sem que os indicadores melhorassem bastante. Do mesmo modo, para ligar duas vilas com uma auto-estrada, evocou-se invariavelmente o argumento da solidariedade regional, ou da ausência de custos para o utilizador. Vinha assim a promessa de desenvolvimento local, ainda que as auto-estradas drenassem a população e o emprego para lugares mais promissores.

Com ou sem auto-estradas, as regiões do interior destilaram as oportunidades de desenvolvimento, pois faltava emprego e gente. Nas aldeias, esvaziavam-se as igrejas, que fechavam as portas ao culto, enquanto as luzes das casas se apagavam, uma por uma, e o mato crescia sem controlo. Mas pouco faltava para a derradeira desgraça: a constatação de que o país se tinha endividado no olho da tempestade financeira internacional.

Entretanto, as grandes empresas começaram a ter cada vez mais capital estrangeiro, porque as regras são iguais para todos. Mesmo assim, estranha-se a crescente complexidade das estruturas accionistas: este é um poder sem rosto. E é por ordem do Oculto que este governo privatizou, a bem ou a mal, empresas públicas que davam lucro.

Resta agora a benevolência dos credores do Estado, que a constituição diz serem cidadãos tão livres como todos os outros. Os bancos existem para ser sempre salvos, não importa como é que naufragam, porque um banco nunca pode falir. As casas podem ficar anos por vender enquanto pagam impostos mais baixos, ou nulos, porque o negócio imobiliário contiua a ser estratégico para o país. E num sector financeiro desprovido de moralidade, como dizia o dono do Banco Espirito Santo, só o Estado e os seus contribuintes são chamados a honrar os seus compromissos.

Teixeira, 18.4.2014

Escrevo na derradeira tarde daqueles que foram dos dias mais marcantes que alguma vez tive. À frente do café da aldeia de Uva, vi o sol generoso esconder-se sob os montes ásperos da terra lavrada. E em toda a aldeia dormente, os aviões distantes descreviam o único movimento aparente perante uma vista desarmada. Podiam cruzar os céus mas não paravam; era como se nunca tocassem (n)este mundo.

Apressadamente, a senhora Ana apareceu, vinda da ponte. Trazia o Almanaque que nos prometera horas antes. Deu-mo na mão e esboçou um sorriso:

- Gosto muito de ler e tenho pena de não ter guardado mais disto. São recordações de antigamente e dizem-me muito, por isso gostava que me trouxessem de volta. Mas se quiserem podem levar convosco.

Perplexos, prometemos devolver o documento. A senhora Ana, que partilhava conosco uma das suas mais valiosas recordações, nem sempre tivera a vida fácil. Do passado, falara-nos do pai, que arriscava a vida durante as cheias, enquanto a sua barcaça ajudava os viandantes. Os restantes familiares saíam de noite enquanto faziam contrabando. São dificuldades do passado que parecem ultrapassadas, uma vez que, como lembrou o senhor Domingos, agora vive-se melhor. As novas gerações puderam emigrar para longe e os que ficaram puderam comprar tratores e carros e melhorar as casas.

Mesmo com a vida melhor, as aldeias definham. O matagal alastra-se sobre as terras (ainda) cultivadas. Em Uva, apenas vive um jovem, de 17 anos, que se desloca para longe para conseguir ter aulas. E não se vislumbra nenhum retrocesso neste êxodo silencioso e prolongado, que parece condenar cada vez mais casas vazias a uma ruína inoxerável.

Repensar Uva não implica questionar as dinâmicas demográficas, o declínio da economia local e os problemas ambientais existentes. As alterações que já se viram no território ao longo das últimas décadas podem deixar marcas indeléveis. No entanto, é necessário repensar a forma de preparar Uva para as próximas gerações.

Deixar Uva pronta a acolher novas gerações implica não só dar visibilidade à aldeia, mas também preservar os traços que definem a identidade e a singularidade deste território. Desse modo será possível atrair novos habitantes que, dedicando-se à agricultura ou aos serviços (teletrabalho) possam, em maior ou menor número, atenuar o isolamento dos atuais habitantes e reverter o abandono de um território único.

A regeneração da aldeia de Uva poderia assentar na dimensão social, ambiental e económica. Como tal, uma intervenção a desenvolver a longo prazo não pode ser setorial, pelo que deve integrar diferentes iniciativas, promovidas por vários atores.

Utilizando a escola primária como ponto de descoberta para a aldeia, seria possível criar um sistema de percursos que permitisse conhecer livremente alguns dos lugares de interesse da aldeia e do vale da ribeira das Fraugas. Ao visitante seria então fornecido um folheto onde a informação que surge à medida que se desdobra é cada vez mais específica. No folheto haveria também espaço para o visitante marcar os pontos mais interessantes, desenhar, escrever e pensar. Uma urna no centro de interpretação permitiria aos visitantes contribuir com uma opinião ou comentário, como se de um livro de visitas se tratasse. Alguns dos folhetos escritos poderiam mesmo ser expostos.

De modo a preservar o sentido de lugar, sinalização no local teria um impato visual mínimo. No entanto, para facilitar a orientação, esta poderia estar inserida no Registo Nacional de Percursos Pedestres, designadamente as Pequenas Rotas e as Grandes Rotas, onde a informação visual é uniformizada.

Os percursos existentes poderiam estimular o encontro entre visitantes e moradores. Nos casos em que os proprietários consentem a passagem de um percurso, seria possível colocar escadas de madeira sobre os muros de pedra, afim de os preservar.

Paralelamente ao trabalho a desenvolver no local para a implementação dos percursos pedestres, seria necessário promover a aldeia junto aos media, designadamente ao nível das redes sociais ou da integração em redes internacionais de património. Também seria possível promover os percursos junto de associações afins, clubes de actividades ao ar livre ou juntas de freguesia que pudessem organizar passeios.

A atração de visitantes pode não ser suficiente para dinamizar a aldeia, mas constitui uma oportunidade de regeneração. Para tal, Uva terá de ser um território atrativo para diferentes atividades de duração variável. A atração de jovens estudantes ou trabalhadores que possam trabalhar à distância poderia ser facilitada através do arrendamento de casas da aldeia a preços reduzidos. Também a criação de um banco de terras, destinado a atividades do setor primário poderia atrair empresários agrícolas, cuja atividade poderia benefeciar os ecossistemas locais. O carácter destas intervenções teria de assegurar, no entanto, a integração do ambiente construído na aldeia, junto dos moradores, de modo a gerar o máximo benefício na comunidade local.

À saída de Uva, a estrada serpenteia entre os lameiros do rio Angueira, cujas águas espelham os freixos centenários e o céu crepuscular. Inpirado na energia que o senhor Américo conserva quando, aos 84 anos, sobe montes e conta histórias, e depois de conhecer um pouco da aldeia, sinto a responsabilidade de respeitar e manter vivo o legado que várias gerações deixaram. O renascer destas terras depende de quem as quiser amar, mesmo com os infurtúnios que as forjam.