sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Teixeira, 18.4.2014

Escrevo na derradeira tarde daqueles que foram dos dias mais marcantes que alguma vez tive. À frente do café da aldeia de Uva, vi o sol generoso esconder-se sob os montes ásperos da terra lavrada. E em toda a aldeia dormente, os aviões distantes descreviam o único movimento aparente perante uma vista desarmada. Podiam cruzar os céus mas não paravam; era como se nunca tocassem (n)este mundo.

Apressadamente, a senhora Ana apareceu, vinda da ponte. Trazia o Almanaque que nos prometera horas antes. Deu-mo na mão e esboçou um sorriso:

- Gosto muito de ler e tenho pena de não ter guardado mais disto. São recordações de antigamente e dizem-me muito, por isso gostava que me trouxessem de volta. Mas se quiserem podem levar convosco.

Perplexos, prometemos devolver o documento. A senhora Ana, que partilhava conosco uma das suas mais valiosas recordações, nem sempre tivera a vida fácil. Do passado, falara-nos do pai, que arriscava a vida durante as cheias, enquanto a sua barcaça ajudava os viandantes. Os restantes familiares saíam de noite enquanto faziam contrabando. São dificuldades do passado que parecem ultrapassadas, uma vez que, como lembrou o senhor Domingos, agora vive-se melhor. As novas gerações puderam emigrar para longe e os que ficaram puderam comprar tratores e carros e melhorar as casas.

Mesmo com a vida melhor, as aldeias definham. O matagal alastra-se sobre as terras (ainda) cultivadas. Em Uva, apenas vive um jovem, de 17 anos, que se desloca para longe para conseguir ter aulas. E não se vislumbra nenhum retrocesso neste êxodo silencioso e prolongado, que parece condenar cada vez mais casas vazias a uma ruína inoxerável.

Repensar Uva não implica questionar as dinâmicas demográficas, o declínio da economia local e os problemas ambientais existentes. As alterações que já se viram no território ao longo das últimas décadas podem deixar marcas indeléveis. No entanto, é necessário repensar a forma de preparar Uva para as próximas gerações.

Deixar Uva pronta a acolher novas gerações implica não só dar visibilidade à aldeia, mas também preservar os traços que definem a identidade e a singularidade deste território. Desse modo será possível atrair novos habitantes que, dedicando-se à agricultura ou aos serviços (teletrabalho) possam, em maior ou menor número, atenuar o isolamento dos atuais habitantes e reverter o abandono de um território único.

A regeneração da aldeia de Uva poderia assentar na dimensão social, ambiental e económica. Como tal, uma intervenção a desenvolver a longo prazo não pode ser setorial, pelo que deve integrar diferentes iniciativas, promovidas por vários atores.

Utilizando a escola primária como ponto de descoberta para a aldeia, seria possível criar um sistema de percursos que permitisse conhecer livremente alguns dos lugares de interesse da aldeia e do vale da ribeira das Fraugas. Ao visitante seria então fornecido um folheto onde a informação que surge à medida que se desdobra é cada vez mais específica. No folheto haveria também espaço para o visitante marcar os pontos mais interessantes, desenhar, escrever e pensar. Uma urna no centro de interpretação permitiria aos visitantes contribuir com uma opinião ou comentário, como se de um livro de visitas se tratasse. Alguns dos folhetos escritos poderiam mesmo ser expostos.

De modo a preservar o sentido de lugar, sinalização no local teria um impato visual mínimo. No entanto, para facilitar a orientação, esta poderia estar inserida no Registo Nacional de Percursos Pedestres, designadamente as Pequenas Rotas e as Grandes Rotas, onde a informação visual é uniformizada.

Os percursos existentes poderiam estimular o encontro entre visitantes e moradores. Nos casos em que os proprietários consentem a passagem de um percurso, seria possível colocar escadas de madeira sobre os muros de pedra, afim de os preservar.

Paralelamente ao trabalho a desenvolver no local para a implementação dos percursos pedestres, seria necessário promover a aldeia junto aos media, designadamente ao nível das redes sociais ou da integração em redes internacionais de património. Também seria possível promover os percursos junto de associações afins, clubes de actividades ao ar livre ou juntas de freguesia que pudessem organizar passeios.

A atração de visitantes pode não ser suficiente para dinamizar a aldeia, mas constitui uma oportunidade de regeneração. Para tal, Uva terá de ser um território atrativo para diferentes atividades de duração variável. A atração de jovens estudantes ou trabalhadores que possam trabalhar à distância poderia ser facilitada através do arrendamento de casas da aldeia a preços reduzidos. Também a criação de um banco de terras, destinado a atividades do setor primário poderia atrair empresários agrícolas, cuja atividade poderia benefeciar os ecossistemas locais. O carácter destas intervenções teria de assegurar, no entanto, a integração do ambiente construído na aldeia, junto dos moradores, de modo a gerar o máximo benefício na comunidade local.

À saída de Uva, a estrada serpenteia entre os lameiros do rio Angueira, cujas águas espelham os freixos centenários e o céu crepuscular. Inpirado na energia que o senhor Américo conserva quando, aos 84 anos, sobe montes e conta histórias, e depois de conhecer um pouco da aldeia, sinto a responsabilidade de respeitar e manter vivo o legado que várias gerações deixaram. O renascer destas terras depende de quem as quiser amar, mesmo com os infurtúnios que as forjam.

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