Um pouco por toda a Europa, a insatisfação popular assume diferentes contornos. Mas a Extrema-Direita parece ganhar cada vez mais adeptos, com algumas excepções, onde as opiniões do eleitorado resistem em extremar-se. O fenómeno, impensável há uma década, merece uma análise profunda.
O aumento da popularidade da Extrema-Direita reflecte o sucesso de algumas políticas europeias. Demonstra a desmilitarização de uma Europa cada vez mais mercantil, que permite à Força Aérea pouco mais que descobrir aviões russos. Demonstra o sucesso da desindustrialização perpetrada ao abrigo dos mais singulares interesses multinacionais, que preferem produzir lá fora. Demonstra a voracidade de um desemprego que atinge gente de todos os canudos, idades e credos. É que, quanto mais desemprego houver, menos vale o esforço dos que trabalham, e quem emprega sabe disso. Por fim, a ascensão da Extrema-Direita testemunha a calamidade de políticas sociais e económicas avulsas, da admissão criminosa de países menos competitivos na Zona Euro e nos ciclos de despesismo desmedido e austeridade castradora.
Os europeus, principalmente os mais jovens, sentem as suas expectativas frustradas e não têm em memória os anos das guerras. Perante esta tendência, a busca de culpas é sintomática. Culpam-se os ricos e os pobres, os nórdicos e os sulistas, a Merkel e o Barroso, os banqueiros e as agências de Rating.
Nesta busca incessante de culpas, ganha a culpa que ganhar mais adeptos. Acontece, pois, que certos partidos políticos apontaram o alvo aos imigrantes. Os imigrantes tiram emprego. Os imigrantes vão acabar com os Arianos. Os imigrantes roubam-nos Espaço Vital. Os imigrantes são incivilizados. A retórica é afinada consoante as diferentes realidades. Os portugueses não são imigrantes, são bons trabalhadores.
Quando a retórica assume o seu ponto de caramelo, orquestra a histeria colectiva e alastra para além do imaginável. Talvez o senhor Le Pen esfregue as mãos de contente cada vez que lê notícias sobre as atrocidades do Estado Islâmico. Vejam, seis cidadãos nacionais foram para a Síria! Cuidado com essa gente! Um por um, os países começam a olhar com desconfiança para certas comunidades de pretensos invasores. Mas o que o senhor Le Pen talvez não recorde imediatamente, é a origem do partido que fundou e liderou até abdicar pela filha. A Frente Nacional, apesar da solidez de um só líder, passou por várias e inconsistentes linhas ideológicas. O partido já incluíu, nos idos anos 80, defensores do neoliberalismo. Esse dado seria irrelevante se não houvesse um padrão semelhante no financiamento de partidos como o grego Aurora Dourada.
Se a opinião pública julga que, ao apoiar os partidos de Estrema Direita, junta-se num bastião contra o Mal, desengane-se. As forças que sustentam as mais recentes opções políticas estão acima da lavagem ideológica moralista que as reveste. Seria aliás interessante imaginar as Estremas-Direitas no poder, sentindo-se tentadas a cumprir programas eleitorais. Como seria então se os países, com um nível inédito de dependência do exterior, erguessem barreiras alfandegárias que violam acordos internacionais feitos ao abrigo da Organização Mundial do Comércio.
Neste Mercado Livre, descriminar os estrangeiros que menos podem, refugiados económicos pelas mais variadas razões, pode ser tão inconsequente como cruel.
Sem comentários:
Enviar um comentário