sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Abril não matou Maquiavel



Anos volvidos, a Revolução deixou os seus frutos. Vive-se melhor, durante mais tempo e com mais liberdade. O poder deixou de estar concentrado num Estado obsoleto, que apenas se sustinha com jogos de poder oligárquicos, para sair à rua, aos sindicatos, aos jornais livres e aos partidos democraticamente eleitos. Estas conquistas, porém, não são estáticas e só se sustêm enquanto forem insufladas.

Os tempos não param, e os feudalismos nascem da apatia das multidões, da deseperança e do não envolvimento cívico. É, aliás, bastante fácil destruir Abril por dentro sem tocar na fachada que o povo erigiu, instruir cidadãos menos exigentes, complacentes com abusos cada vez maiores e sem envolvimento nas decisões que verdadeiramente dizem respeito a todos. É que, por vezes, um olhar desatento ao telejornal faz desalento, e apetece suspirar “não vale a pena”...

É sabido, porque a História nos ensinou, que o poder corrompe, cria laços e raízes, e que a não oposição ou resistência só agrava o avanço da autoridade. Por essa razão é pouco tranquilizante constatar que, 40 anos depois da Revolução, cada vez menos votam; é como se a alternância entre os dois partidos no parlamento fosse encenada dentro de um só sistema.

Como resultado dessa apatia, monta-se à nossa volta um Estado de excepção. Excepção na crise, que legitima os governos a tomar medidas excepcionais. Exceção nas medidas excepcionais, porque os que mais contribuem para a economia não devem ser sequer beliscados. E desse modo, justifica-se a educação, a saúde e a justiça de Exceção.

Cada vez mais fala-se de uma crise abstracta, de números e gráficos, para justificar o Estado de excepção. Suaviza-se o discurso e chama-se à destruição austeridade ou, melhor ainda, ajustamento. Na volta não se compreende porque é que, quando o desemprego paira no alto, é preciso atravessar uma maratona burocrática e fiscal para pintar, cantar ou vender na rua, ou mesmo para abrir um pequeno negócio. Não se compreende também porque é que há carros topo de gama, negócios que prosperam em tempos de crise e leis e contratos que são indecifráveis em português corrente.

Certamente que a liberdade de opinião é respeitada, mas as leis dificultam a fundação de novos jornais. Conhecer a “atualidade” só pode ser feito pelos grandes jornais, e um punhado de partilhas virais nas redes sociais. Contudo o lápis azul desapareceu, ou pelo menos já não desenha as notícias. E eu tive a liberdade de escrever estas linhas. Sei que devo muito aos Capitães de Abril, que desobedeceram por um propósito, e sei que esta geração tudo tem para melhorar o legado da Revolução.

Muito obrigado.

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