sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A Fundação Francisco Manuel dos Santos e o eucalipto

Os ensaios da Fundação, que versam sobre os mais variados temas, assumem uma grande utilidade no debate cívico. Influenciam, não só a opinião pública, na medida em que promove o esclarecimento da população, mas também geram conhecimento capaz de sustentar as mais variadas decisões políticas.

Um dos ensaios, da autoria do Professor Catedrático João Santos Pereira, têm como título O Futuro da Floresta Portuguesa. O livro expõe, de forma clara e concisa, o valor económico e ambiental da floresta. Temas como a sequestração de carbono e a prevenção de incêndios surgem inevitavelmente, uma vez que assumem um grande relevo nas políticas de gestão florestal. No entanto, as palavras finais parecem menos claras.

Em jeito de conclusão, é enumerado o papel das várias espécies florestais, designadamente o sobreiro e o eucalipto. Relativamente ao sobreiro, o autor refere que “a existência de uma área elevada de sobreiro no futuro (...) requer que a componente industrial da fileira enfrente com êxito os problemas comerciais que dizem respeito à competição entre a rolha de cortiça natural e outros vedantes das garrafas de vinho.” Seguidamente, e sem mais acrescentar sobre uma espécie com um valor económico ameaçado, o autor refere os benefícios que o eucalipto apresenta na adaptação às alterações climáticas. E acrescenta: “Como cultivo intensivo, as rotações de eucalipto permitem uma grande mobilidade. (...) No futuro próximo, vai ainda ser a discussão e o impacto da legislação restritiva que limita a expansão da área do eucalipto que vão dominar.”

Esta última frase, que aliás encerra o ensaio, parece misteriosa. Será uma chamada de atenção, um toque a rebate para a floresta portuguesa que não foi ainda convertida em monocultura do eucalipto? Esta pode ser ainda a profetização dos mais bizarros projectos legais que têm tido a conivência e a assinatura deste governo.

No sentido de liberalizar a plantação do eucalipto, desapareceu misterioramente de São Bento a preparação de proposta de lei no sentido de o classificar como espécie invasora, tal como acontece em Espanha e noutros países. É bizarro perceber que, legalmente, uma espécie invasora no país vizinho, é o acarinhado “trigo de império” no lado de cá. Também é bizarra a liberalização dos pedidos de arborização, aprovada por este governo, que foi apelidada como a “lei do eucalipto livre”. Se o eucalipto representa 26% da floresta portuguesa, uns preocupantes 92% da área plantada depois dessa lei pertencem ao eucalipto, o fascista dos campos, como lhe chamou Afonso Cautela.

Basear o valor de espécies como o sobreiro na rolha de cortiça parece, no mínimo redutor. Há mais aplicações para a cortiça em áreas tão distintas como a construção e a aeronáutica, cuja procura desta matéria prima está em crescimento. E para além do valor da cortiça, soma-se o valor do montado como paisagem produtiva, como atracção turística, como prevenção de incêndios e no combate à desertificação.

Incontornável parece ser o valor económico do eucalipto. Mas poderá haver “bom eucalipto”? A reduzida dimensão fundiária por vezes frustra qualquer plano de ordenamento florestal, situação que pode desencadear grandes perdas económicas e ambientais. E mesmo nos casos mais felizes, é necessário contabilizar os custos desta admirável espécie, tais como a erosão irreversível de solos férteis ou a perda das cada vez mais escassas reservas de água no solo.

Provavelmente, em vez de discutirmos a liberalização da floresta, poderíamos atenuar os efeitos nefastos da plantação do eucalipto em Portugal. Nesse sentido, a criação do segundo Parque Nacional, o do Montado, livre de eucalipto, que incluísse grandes parcelas do Alentejo, podia ser a garantia de protecção de uma paisagem única no mundo, que se quer candidata a Património da Humanidade da UNESCO.

Independentemente da orientação política, reduzir a terra a um jogo de casino do “quem dá mais” parece pouco sensato. Não quero viver num país onde os amigos que vêm do estrangeiro me dizem “da auto-estrada só vejo eucaliptos”. Portugal é muito mais do que isso.

Sem comentários:

Enviar um comentário