sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Minas da Boa Fé: nem tudo o que brilha é ouro

Escrevo estas linhas para que a consciência não me pese tanto. E quando o país se verga aos mais obscuros interesses, algo tem de ser feito.

Desta feita, pretende-se sacrificar uma paisagem única e ancestral. Podia referir-me às barragens do Tua e do Sabor que, apesar de cobrirem irreversivelmente a paisagem, podem vir a ser úteis aos agricultores em tempos de seca, os rios transbordam menos no inverno e a electricidade é produzida cá dentro e não lá fora. Mas este caso é diferente.

A empresa canadiana Colt Resources é uma das concessionárias na prospecção mineira em Portugal. Algumas destas concessões do governo incluem a reactivação de minas abandonadas, podendo ser realmente benéficas para o desenvolvimento regional. Esta concessão, porém, inclui uma das raras porções de montado que, pelo excepcional valor ecológico, está protegida pela Rede Natura 2000. Relembre-se que esta paisagem, ao contrário da extracção mineira, é única no mundo, e foi apelidada por Mike Salisbury, produtor da BBC que fez um documentário sobre o montado, como sendo uma mina de ouro de vida selvagem. A zona em questão está ainda polvilhada dos mais variados monumentos megalíticos, herdades quinhentistas e santuários barrocos. Ora, tendo sido descoberto ouro, alterou-se o Plano Director Municipal e fizeram-se imediatamente planos para uma mina que mede, de área, 100 campos de futebol. Naquela que é uma das paisagens rurais melhor preservadas de todo o país, há planos para abater milhares de sobreiros e azinheiras e abrir duas crateras a céu aberto, de cem metros de profundidade. E no fim, para tornar visível este espectáculo “bom para a economia”, ergue-se um monumento, possante e imóvel na planície: um monte de escombros, vulgo escombreira, com 300 metros de altura, que com sorte talvez ombreie a altura da Torre Eiffel. Estes dados foram avançados pelo site Tribuna Alentejo. Entretanto, a Colt Resources anuncia, no seu site, a inteção de avançar com um plano de “exploração agressiva” que torne a região mineira importante a nível mundial.

Para sustentar tamanho projecto, não cessam os já vernáculos elogios do desempenho económico. Prometem-se empregos temporários, durante os cinco anos de laboração da mina. Em troca, a Colt Resources delega a responsabilidade legal de tudo o que acontece na sua filial, a Aurmont Resources Unipessoal Lda, que assumirá as 10 000 toneladas de resíduos tóxicos, mais nocivas que os activos tóxicos bancários, uma vez que incluem arsénio, chumbo, cobre, mercúrio inorgânico, níquel, prata e zinco que, na melhor das hipóteses, e se não houver acidentes, irão contaminar águas subterrâneas e a saúde pública, segundo várias Organizações Não Governamentais.

Por cinco anos de laboração - cinco anos em que os royalties que o Estado recebe correspondem a uma reduzida parte da mais-valia - fere-se uma paisagem que leva pelo menos, 70 a 100 anos a recuperar e cria-se um desemprego dificil de resolver. E se houver danos ambientais mais pesados, isto é, se a barragem dos rejeitados se romper, este pode ser o certificado de óbito de uma região que vive de actividadess como o turismo ou a pecuária. Tal como aconteceu em casos semelhantes do país vizinho, o rio Xarrama pode encarregar-se por derramar irreversivelmente águas tóxicas e estéreis no rio Sado.

Sem tomar uma posição definitiva sobre o projecto mineiro, por dados alegadamente inconclusivos, a Assembleia Municipal de Évora reuniu-se no centro paroquial da freguesia de Boa Fé. Convidou vários organismos, entre os quais a própria Colt Resources. Segundo o relato desse encontro, que a Câmara Municipal disponibiliza na página web, Jorge Valente, responsável máximo da Aurmont Resources (concessionária da Colt Resources em Portugal) disse que o projecto não avança se a população for contra.

A junta de freguesia, as organizações locais e os moradores que assistiram à reunião expressaram a sua desaprovação face ao projecto. Se este é um país democrático, de que estamos à espera?

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