sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

É tudo uma questão de retórica



A Esquerda, velha e monolítica, tarda em aceitar os novos tempos. Há até quem rotule o seu discurso como a cassette. Ao mesmo rufar dos tambores, segue-se o já tradicional ataque aos capitalistas, que fazem todos parte do temível sistema capitalista, aquela omnipresente fonte dos males da sociedade capitalista. E depois surgem, claro está, os mais variados personagens do Grande Capital que, entre banqueiros, milionários e a quadrilha da Troika, dividem a culpa dos mais pequenos acontecimentos, tais como a exploração e a lumpenização dos assalariados. O Povo, operários e os camponeses, tem de se revoltar, reivindicando o fim desta negociata escandalosa.

Já o discurso dos bem-sucedidos, aqueles que reúnem condições de confiança para governar, é bem diferente. É um discurso que muda de vocábulos ao ritmo a que saem as novas colecções Outono-Inverno, porque é preciso inovar e surpreender o eleitorado. Neste momento, tudo se joga em operações de marketing e de acessoria de impensa, capazes de de mobilizar a junção de sinergias, com vista à concretização dos mais variados programas capacitadores.

Nesta conjuntura socioeconómica em que nos encontramos, não há patrões nem assalariados, apenas há empreendedores e colaboradores, membros de equipa que contribuem na prossecução dos mais variados objectivos. Tampouco existe classe média, até porque essa verdadeiramente nunca existiu. A luta de classes é uma miragem, um fetichismo marxista, porque Marx está morto e enterrado, e agora só lemos Piketty.

Tudo aquilo que existe é inequidade na distribuição dos rendimentos, mas remetemos, quando possível, o estudo dessa matéria para as Fundações privadas e para as Organizações Não Governamentais. Estas instituições cooperam nas melhores práticas de governança. Sindicatos é coisa do passado, porque os direitos estão já assegurados pelo Governo. As greves só dão transtorno e dores de cabeça a quem menos culpa tem e, acima de tudo, fazem a economia parar. Quaisquer restrições ao crescimento económico devem ser banidas, não vá o país descer no ranking da competitividade.

Garantir um Pacto de Regime passa por assegurar condições de governabilidade. O memorando da Troika, de facto, obrigou vários actores políticos e sociais a agir em conformidade. Efectivamente, temos de nos livrar das jóias da coroa, isto é, meras empresas públicas que podem dar lucro a accionistas estrangeiros; precisamos de cortar nas gorduras e da austeridade, isto é, pagar menos reformas e fazer menos investimentos improdutivos. Neste processo de ajustamento, há menos consumo interno e é essencial exportar. O património do Estado precisa de ser alienado e a insustentabilidade da Segurança Social prende-se não com os salários desregulados ou com a fuga de cérebros, mas sim com os desempregados e os bebés que não nascem.

Resta alguma queixa? Para além do poder do voto, existem livros de reclamações. Há ainda parcerias e organizações internacionais com observadores competentes. E se nenhuma destas formas de democracia for suficiente, existe sempre a serventia da porta, uma vez que emigrar é sempre uma possibilidade.

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